(Resenha) Vulgo Grace - Margaret Atwood

Livro no Skoob: Vulgo Grace
Título Original: Alias Grace
Autora: Margaret Atwood
Editora: Rocco
Páginas: 496
Ano: 2017

Depois de O conto da aia, que deu origem à prestigiada série The handmaid’s tale e alcançou o status de bestseller mais de 30 anos após a publicação original, outro romance de Margaret Atwood vai ganhar as telas, desta vez pela Netflix, e volta às prateleiras com nova capa pela Rocco. Inspirado num caso real, Vulgo Grace conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão e a governanta da casa onde trabalhava, na Toronto do século XIX. Com uma narrativa repleta de sutilezas que revelam um pouco da personalidade e do passado da personagem, estimulando o leitor a formar sua própria opinião sobre ela, Atwood guarda as respostas definitivas para o fim. Afinal, o que teria levado Grace Marks a cometer o crime? Ou será que ela estaria sendo vitima de uma injustiça?

Imagino que muitos leitores, irão ficar curiosos pelo livro pelo mesmo motivo que eu: o repentino sucesso da autora Margaret Atwood, após a série baseada em sua obra O Conto da Aia, devo confessar que esta não foi uma leitura fácil, ainda fico querendo abrir o livro em uma página qualquer apenas para ler mais um trecho, mas só de pensar nisso já me bate uma moleza.

Vulgo Grace é um livro que vai contar uma história real, ou quase isso, real, porque Grace realmente existiu, foi acusada do crime de assassinato e passou vários anos presa, mas também real pois vemos um lado pouco explorado da vida de uma jovem pobre, numa sociedade machista do século dezenove. Assassina ou vítima? Isso pouco importa para a narrativa, com apenas 16 anos, jovem e de uma aparência considerada bela pelos que a viam, Grace tinha algo nela que era difícil acreditarem que seria capaz de fazer parte de algo tão vil quanto planejar e assassinar sua governanta e patrão. Por esse motivo, por outro lado James McDermott nos foi apresentado como um empregado que não seguia as ordens e era muito impertinente, fazendo diversas vezes ameaças aos patrões, dessa forma quando o casal Thomas Kinnear e Nancy Montgomery são assassinados, James é condenado a forca e Grace a prisão perpétua.

Grace era uma imigrante irlandesa, jovem e mulher, o que no livro nos apresenta um quadro de como era a situação feminina na sociedade daquele século, o preconceito contra imigrantes, a classe pobre e o estigma de ser mulher, tudo isso esta impregnado nas páginas e na narração da própria Grace. O livro nos mostra o seu ponto de vista desde o momento em que ela chegou naquele país, e vemos também pontos de vistas de outros personagens o que nos faz comparar certas passagens e ver as discrepâncias entre elas.

Outro assunto que a autora aborda muito bem é o tratamento mental e como ele era feito naquela época,  normalmente quando assistimos filmes ou séries antigas, vemos os horrores cometidos em nome da ciência, e como principalmente as mulheres sofreram acusadas de algum distúrbio mental, histeria ou etc, e também o fato do ser feminino sempre ser considerado "uma mente mais fraca" em relação ao homem, e passamos a ver como Grace se torna alvo de diversos estudos para explicar sua condição.

"O que devo contar ao dr. Jordan sobre esse dia? Porque agora já estamos quase lá. Lembro-me do que disse quando fui presa e o que o Sr. MacKenzie, o advogado, disse que eu deveria dizer e o que eu não disse nem mesmo a ele e o que eu disse no julgamento e o que eu disse depois, que também foi diferente. E o que McDermott disse que eu disse e o que os outros disseram que eu devo ter dito, pois há sempre aqueles que lhe atribuem suas próprias falas e as colocam diretamente em sua boca, e esse tipo de gente é como os ventríloquos, que podem projetar a voz, nas feiras e nos espetáculos, e você não passa de seu boneco de madeira.”

Vulgo Grace é um livro difícil, eu enrolava para poder retornar a leitura, mas quando começava era como um vício que eu era incapaz de largar, a escrita da autora é algo fascinante, a riqueza de detalhes nos transporta direto para a Toronto de 1840, o fato como ela preencheu as lacunas da história de Grace dando ao leitor a liberdade para jugá-la inocente ou culpada é algo maravilhoso, pois a própria Grace nos deixa em dúvida quanto a isso, porém devo dizer que fiquei bastante receosa, será que ela foi poupada da forca pela pouca idade? Pela beleza? Pelo fato de ser protestante e defendida por alguns pastores?

O mais legal do livro é estimular o leitor a conhecer mais de uma personagem real, que deixou na história um mistério em relação a sua existência e a veracidade de seus atos. Uma ótima leitura para quem gostou de O Conto da Aia, ou já viu as séries baseadas nas obras da autora. 


VULGO GRACE foi cedido em parceria com a EDITORA ROCCO

Sobre a autora:


Margaret Eleanor Atwood é uma escritora canadense que atua como romancista, poetisa, contista e ensaísta. É reconhecida com inúmeros prêmios literários internacionais importantes. Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país. 

1 comentários: